quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sobre as Manifestações

       Como todos já sabem, o país vem realizando, desde a Copa das Confederações até os dias de hoje, várias manifestações por todo seu território. Tão variados são os temas que classes distintas estão se juntando e caminhando livres pelas ruas das cidades a reivindicar o que é seu por direito aos três âmbitos do poder nacional. Noticiários nacionais divulgando a marcha da união de forças que gritam em alto e bom som: queremos mudanças!

      Pensando neste momento, o Skoob, maior site literário do Brasil, organizou uma seleção de contos falando deste tema. Foram vários os textos mandados e devo admitir que, pelo que vi de dois amigos meus, o pessoal teve muita dificuldade em escolher os melhores. 

      Neste primeiro post, venho parabenizar tanto a atitude da organização ao dar a chance para os autores nacionais exporem seu trabalho, quanto aos meus amigos queridos que conseguiram a façanha de serem escolhidos! Infelizmente, não foi desta a minha vez. Fazer o quê... Então, como eu também escrevi sobre o assunto do meu ponto de vista, estou agora disponibilizando o conto que comoveu grandes amigos meus. Espero que vocês gostem!

Para a minha pequena

“A mudança do século XXI finalmente começou.
Estava acontecendo por todo lugar, diariamente, com multidões nas ruas clamando por justiça.
Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília. Capitais importantes do Brasil já haviam se juntado e proclamado em uma só voz: “Não iremos mais ficar calados!”. Gritos, vozes exaltadas, cheias de um sentimento puro de indignação contagiavam os cidadãos por onde passava. A onda de protestos vinha destruindo o mal feito pelos governos e reerguendo a vontade popular de se rebelar contra o que achava injusto, o que não aceitava, o que não via a hora de mudar.
Jovens saiam de sua zona de conforto não somente para lutar pelo fim do aumento da tarifa de vinte centavos, mas por direitos que lhes eram reservados e que há muito haviam sido privados em detrimento dos grandes que controlam as altas casas de poder na nação.
Toda aquela empatia era uma união de brasileiros que expressavam sua mais profunda crença: que o nosso país poderia mudar. Que ele ainda existia em nossos corações e que nós poderíamos pô-lo em prática quando decidíssemos, mas que, principalmente, ainda havia esperança.
Esperança vista nos rostos das milhares de pessoas que foram as ruas lutar. Coragem dos que se puseram no combate pelo lugar de onde nasceram e torce para vê-lo prosperar, como uma fênix saída das cinzas. Daqueles que querem se erguer como um país mais solidário, mais carinhoso com o próximo, mais consciente de sua obrigação em uma comunidade.
Como já falava Renato Russo, “somos os filhos da revolução”.  Podemos mostrar do que somos capazes. Podemos pôr o mundo aos nossos pés e fazê-los admitir que não há nada de estranho no Brasil. Que somos fortes. Que honramos o nosso hino e fazemos jus ao que ele idolatra. Não nos abaixamos e assentimos a ninguém, nem corroboramos com a injustiça que assola como uma praga nosso solo e nosso povo. Viemos para mudar. O espírito do novo veio para fincar raízes em cada um dos que leem esse texto.
Não vamos ficar parados. Eu não fiquei parada. Eu estava na passeata, pois não aceito as condições atuais de meu país. Eu saí da zona de conforto, me juntei à massa de revoltados com tantas mazelas que sofre o Brasil e vi o movimento se tornar grandioso e se fortalecer sua diversidade de causas. Porque, sim, “é tanta coisa ruim que não dá para se pôr em um cartaz”. E não fui só eu.
Cidades como a minha, João Pessoa, terem sido capazes de arrastar cinquenta mil pessoas, como acredita a organização do evento, não é pouco. Todas as classes foram representadas, de estudantes e médicos, mais visados, aos cobradores de ônibus e servidores públicos. Todos unidos, num só pedido: por um país forte, aguerrido, que nunca desiste. Que nunca se dá por vencido.
Eram cartazes contra barreira policial, gritos com palavras de ordem contra spray de pimenta. Foi a revolução do Vinagre. O V se tornou maior, mais soberano. O congresso foi tomado. A Paulista foi tomada. A nossa Lagoa Solón de Lucena foi tomada.
A vontade foi única e soberana. Não queremos impor uma Oclocracia. De tirania já vivemos hoje. Queremos uma coisa que vocês não podem dar com seus votos comprados. Queremos que a verdade e a justiça se sobressaiam e que o dinheiro, pela última vez, seja a moeda da jogada.”
Inalei profundamente ao terminar o fervoroso texto que havia escrito para a coluna do jornal da universidade.
- Mainha, que lindo! – suspirou Lena deitada na cama, abrindo aquele sorriso fofo de uma garotinha de cinco anos com o rosto melado de amarelo e verde – Num entendi muito, mas foi bonito! Era o que tu tava escrevendo ontem, nera?
Larguei a folha de papel na cama e a puxei para meu colo.
- Era sim, meu bebê – levantei os braços para ajeitar a tiara que estava troncha no cabelo da pequena. – E você sabe por que a mamãe fez isso? – ela negou balançando os seus cachinhos de anjo que tanto adorava.
 – Eu fiz por você, minha filha. Porque eu quero que você – cutuquei sua barriga, fazendo cócegas e amando ouvir a sua risada inocente -, senhorita, tenha um futuro maravilhoso. Um futuro que realmente valha a pena ser vivido. E o que a mamãe não faria por você, hein?
De longe, uma reunião de vozes se aproximava. Pulando do meu colo, Lena correu para janela e se agitou ao ver os que começavam a passar por nosso prédio.
Atravessou o quarto e puxou minha mão, dizendo animada:
- Vamos maaaainha! Vem logo que o pessoal tá chegando! – quando viu que eu me levantava vagarosamente, resolveu me deixar e seguir aos pulos para a porta, batendo nas paredes onde passava.
Era mais uma manifestação. Mais uma chance de mostrar a todos que não tínhamos medo. Mais uma chance para guerrear por um amanhã melhor não para mim, mas para quem importava para meu coração. Minha pequena, minha Lena.
Sorrindo, segui minha criança e rezei aos céus para que tudo o que nós, brasileiros, fizéssemos hoje, surgisse efeito no final. Porque de injustiça já bastava vivemos por tantos anos.
A mudança era agora. Só bastava que todos entendessem.

Lutando por um país melhor