Como todos já sabem, o país vem realizando, desde a Copa das Confederações até os dias de hoje, várias manifestações por todo seu território. Tão variados são os temas que classes distintas estão se juntando e caminhando livres pelas ruas das cidades a reivindicar o que é seu por direito aos três âmbitos do poder nacional. Noticiários nacionais divulgando a marcha da união de forças que gritam em alto e bom som: queremos mudanças!
Pensando neste momento, o Skoob, maior site literário do Brasil, organizou uma seleção de contos falando deste tema. Foram vários os textos mandados e devo admitir que, pelo que vi de dois amigos meus, o pessoal teve muita dificuldade em escolher os melhores.
Neste primeiro post, venho parabenizar tanto a atitude da organização ao dar a chance para os autores nacionais exporem seu trabalho, quanto aos meus amigos queridos que conseguiram a façanha de serem escolhidos! Infelizmente, não foi desta a minha vez. Fazer o quê... Então, como eu também escrevi sobre o assunto do meu ponto de vista, estou agora disponibilizando o conto que comoveu grandes amigos meus. Espero que vocês gostem!
Para
a minha pequena
“A
mudança do século XXI finalmente começou.
Estava
acontecendo por todo lugar, diariamente, com multidões nas ruas clamando por
justiça.
Em
São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília.
Capitais importantes do Brasil já haviam se juntado e proclamado em uma só voz:
“Não iremos mais ficar calados!”. Gritos, vozes exaltadas, cheias de um
sentimento puro de indignação contagiavam os cidadãos por onde passava. A onda de
protestos vinha destruindo o mal feito pelos governos e reerguendo a vontade
popular de se rebelar contra o que achava injusto, o que não aceitava, o que
não via a hora de mudar.
Jovens
saiam de sua zona de conforto não somente para lutar pelo fim do aumento da
tarifa de vinte centavos, mas por direitos que lhes eram reservados e que há
muito haviam sido privados em detrimento dos grandes que controlam as altas
casas de poder na nação.
Toda
aquela empatia era uma união de brasileiros que expressavam sua mais profunda
crença: que o nosso país poderia mudar. Que ele ainda existia em nossos
corações e que nós poderíamos pô-lo em prática quando decidíssemos, mas que,
principalmente, ainda havia esperança.
Esperança
vista nos rostos das milhares de pessoas que foram as ruas lutar. Coragem dos
que se puseram no combate pelo lugar de onde nasceram e torce para vê-lo
prosperar, como uma fênix saída das cinzas. Daqueles que querem se erguer como
um país mais solidário, mais carinhoso com o próximo, mais consciente de sua
obrigação em uma comunidade.
Como
já falava Renato Russo, “somos os filhos da revolução”. Podemos mostrar do que somos capazes. Podemos
pôr o mundo aos nossos pés e fazê-los admitir que não há nada de estranho no
Brasil. Que somos fortes. Que honramos o nosso hino e fazemos jus ao que ele idolatra.
Não nos abaixamos e assentimos a ninguém, nem corroboramos com a injustiça que
assola como uma praga nosso solo e nosso povo. Viemos para mudar. O espírito do
novo veio para fincar raízes em cada um dos que leem esse texto.
Não
vamos ficar parados. Eu não fiquei parada. Eu estava na passeata, pois não
aceito as condições atuais de meu país. Eu saí da zona de conforto, me juntei à
massa de revoltados com tantas mazelas que sofre o Brasil e vi o movimento se
tornar grandioso e se fortalecer sua diversidade de causas. Porque, sim, “é
tanta coisa ruim que não dá para se pôr em um cartaz”. E não fui só eu.
Cidades
como a minha, João Pessoa, terem sido capazes de arrastar cinquenta mil
pessoas, como acredita a organização do evento, não é pouco. Todas as classes
foram representadas, de estudantes e médicos, mais visados, aos cobradores de
ônibus e servidores públicos. Todos unidos, num só pedido: por um país forte,
aguerrido, que nunca desiste. Que nunca se dá por vencido.
Eram
cartazes contra barreira policial, gritos com palavras de ordem contra spray de
pimenta. Foi a revolução do Vinagre. O V se tornou maior, mais soberano. O
congresso foi tomado. A Paulista foi tomada. A nossa Lagoa Solón de Lucena foi
tomada.
A
vontade foi única e soberana. Não queremos impor uma Oclocracia. De tirania já
vivemos hoje. Queremos uma coisa que vocês não podem dar com seus votos
comprados. Queremos que a verdade e a justiça se sobressaiam e que o dinheiro,
pela última vez, seja a moeda da jogada.”
Inalei
profundamente ao terminar o fervoroso texto que havia escrito para a coluna do
jornal da universidade.
-
Mainha, que lindo! – suspirou Lena deitada na cama, abrindo aquele sorriso fofo
de uma garotinha de cinco anos com o rosto melado de amarelo e verde – Num
entendi muito, mas foi bonito! Era o que tu tava escrevendo ontem, nera?
Larguei
a folha de papel na cama e a puxei para meu colo.
-
Era sim, meu bebê – levantei os braços para ajeitar a tiara que estava troncha
no cabelo da pequena. – E você sabe por que a mamãe fez isso? – ela negou
balançando os seus cachinhos de anjo que tanto adorava.
– Eu fiz por você, minha filha. Porque eu
quero que você – cutuquei sua barriga, fazendo cócegas e amando ouvir a sua
risada inocente -, senhorita, tenha um futuro maravilhoso. Um futuro que
realmente valha a pena ser vivido. E o que a mamãe não faria por você, hein?
De
longe, uma reunião de vozes se aproximava. Pulando do meu colo, Lena correu
para janela e se agitou ao ver os que começavam a passar por nosso prédio.
Atravessou
o quarto e puxou minha mão, dizendo animada:
-
Vamos maaaainha! Vem logo que o pessoal tá chegando! – quando viu que eu me
levantava vagarosamente, resolveu me deixar e seguir aos pulos para a porta,
batendo nas paredes onde passava.
Era
mais uma manifestação. Mais uma chance de mostrar a todos que não tínhamos
medo. Mais uma chance para guerrear por um amanhã melhor não para mim, mas para
quem importava para meu coração. Minha pequena, minha Lena.
Sorrindo,
segui minha criança e rezei aos céus para que tudo o que nós, brasileiros,
fizéssemos hoje, surgisse efeito no final. Porque de injustiça já bastava vivemos
por tantos anos.
A
mudança era agora. Só bastava que todos entendessem.
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Lindo amiga!
ResponderExcluirEsperando por mais posts ;)